A Encefalomielite Miálgica desencadeada pela Covid-19

Cansaço extremo, indisposição, dores pelo corpo. Estes que são alguns dos sintomas que acometem os pacientes infectados pela COVID-19 podem não ser temporários. Em 25% dos pacientes eles podem permanecer mesmo após a cura do vírus. Isto é relatado por inúmeros pacientes, mantendo uma exaustão profunda. Segundo estudos realizados em todo o mundo, após a recuperação do coronavírus, algumas pessoas seguem doentes pela Encefalomielite Miálgica, conhecida também por Síndrome da Fadiga Crônica (Myalgic Encephalomyelitis/Chronic Fatigue Syndrome – ME/CFS).

Segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia, cerca de 1/4 dos pacientes de Covid-19 podem apresentar quadro de fadiga crônica, caracterizada pelo cansaço que não melhora mesmo após descanso e que pode vir acompanhado de dores musculares e articulares intensas.

De acordo com o presidente da Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR), Dr. José Roberto Provenza, esta é uma síndrome de percepção alterada ao nível do sistema nervoso central, que é comum manifestar-se após uma infecção viral. A Fadiga Crônica atinge cerca de 25% dos pacientes infectados por quadro infeccioso, não apenas pela Covid-19, mas doenças como hepatite B e C, gripe H1N1, mononucleose, toxoplasmose, entre outras, especialmente, porque estas patologias alteram o sistema imunogenético do paciente.

A Academia Nacional de Medicina dos Estados Unidos desenvolveu um relatório para o Diagnóstico e Tratamento da Fadiga Crônica. O documento enfatiza que a detecção precisa da síndrome requer um histórico médico completo, exame físico e o reconhecimento dos sintomas centrais como:

• redução substancial na capacidade de desempenhar atividades prévias à doença e que persista por seis meses ou mais;
• mal-estar pós-esforço (PEM);
• sono não reparador e outros distúrbios do sono;
• deficiência cognitiva e/ou intolerância ortostática (surgimento de alguns sintomas quando em posição ereta, e alívio dos mesmos sintomas após se sentar ou deitar).

A Síndrome da Fadiga Crônica pode ser confundida, em muitos casos, com a Fibriomialgia ou ser apenas tratada como quadro depressivo pela alteração da saúde emocional, mental e redução da autoestima. No entanto, o relatório reforça que, para o diagnóstico exato, os médicos devem ficar atentos para a intensidade e o período de duração do cansaço, sendo que a fadiga deve ser moderada a grave e presente, no mínimo, em 50% do tempo.

“O PEM (mal-estar pós-esforço) é o sintoma mais característico desta síndrome. A sua presença ajuda a diferenciá-la de outras doenças, e ele tem sido objetivamente associado a deficiências no metabolismo aeróbico e ao estresse ortostático”, reforça o relatório da Academia Nacional de Medicina dos Estados Unidos.

Diferente de doenças como a Fibriomialgia, os pacientes acometidos pela Síndrome da Fadiga Crônica podem apresentar outros sintomas como dor generalizada, formas adicionais de distúrbios do sono, sensibilidade à luz, ao som e a agentes químicos, garganta irritada, linfonodos sensíveis, dores de cabeça, problemas gastrointestinais ou do sistema urogenital.

O tempo de duração dos sintomas também diverge. A Fibriomialgia, por exemplo, não tem cura. A Síndrome da Fadiga Crônica dura, em média, de oito meses a um ano. Mas é necessário o tratamento adequado para a extinção dos sintomas.

Tratamento

Segundo relatório de 2015 da Academia Nacional de Medicina dos Estados Unidos não há tratamentos aprovados especificamente para este mal. No entanto, os médicos podem indicar tratamentos farmacológicos e não farmacológicos para amenizar a gravidade dos sintomas.

Alguns medicamentos podem ser recomendados para combater as dores como naltrexona em baixa dose, duloxetina, gabapentina ou pregabalina; fludrocortisona, midodrina, piridostigmina, betabloqueadores em baixas doses e/ou hidratação intravenosa para intolerância ortostática; uso ocasional de modafinil, metilfenidato ou dextroanfetamina para problemas cognitivos ou de fadiga; e trazodona, clonazepam, antidepressivos tricíclicos para indução do sono, quando necessários.

Com relação ao tratamento não farmacológico são muitas as abordagens que incluem desde orientações para a alimentação, além de recursos como auxílios cognitivos para estimular a recuperação da memória, uso de protetores auriculares e óculos de sol em casos de sensibilidade à luz e ao som.

Uma das recomendações mais frequentes dos médicos é a prática de exercícios físicos, como pilates, caminhada e alongamentos. A atividade deve ser de baixa intensidade e só ser alterada de acordo com a evolução do paciente e o desaparecimento dos sintomas.

Números da Doença

O Relatório apresenta ainda dados mais específicos com relação à Síndrome da Fadiga Crônica, entre eles, destaca-se o número estimado de pessoas afetadas pela doença somente nos Estados Unidos que pode variar de 836 mil a 2,5 milhões. Estima-se que a maioria, de 84 a 91% dos pacientes não tenham sido corretamente diagnosticados.

Assim como a Fibriomialgia, a doença se desencadeia nas mulheres com uma frequência três vezes maior do que nos homens. Com relação à faixa etária, há registros de casos em crianças com menos de 10 anos e em idosos acima dos 70 anos. Mas estudos apontam que as faixas mais comuns para o início dos sintomas são entre os 11 e 19 anos, e dos 30 a 39 anos.

Ao apresentarem a doença, pelo menos 25% dos pacientes encontram-se acamados, ou não saem de casa, e até 75% têm dificuldade para ir ao trabalho ou à escola. A causa ainda é desconhecida, embora a doença geralmente apareça logo após uma infecção viral, incluindo agora, o coronavírus.

O Relatório completo da Academia Nacional de Medicina dos Estados Unidos pode ser acessado em https://www.nap.edu/resource/19012/MECFScliniciansguide.pdf e vale uma leitura.