Como a Gestão em Saúde é fundamental para enfrentarmos a Pandemia

Nas últimas semanas, acompanhamos incrédulos o que aconteceu em Manaus. A falta de oxigênio para o tratamento de pacientes com Covid-19 tomou conta dos noticiários. A necessidade de transferência para outros estados, a doação de torpedos, transferidos por aviões fretados por celebridades, o sofrimento do povo manauara estampado nos horários nobres foi algo que sensibilizou a todos.

Observar isso faz com que nos perguntemos: não seria possível prever esse caos?

A resposta é sim. Poderíamos. Ou melhor, mais assertivamente, deveríamos.

Mas efetivamente isso não aconteceu. E por quê?

Para entendermos a gênese disso, precisamos entrar nos aspectos políticos, e depois, na gestão em saúde. Vamos lá.

O Brasil vive há alguns anos uma eterna discussão, entre polos políticos anacrônicos. Direita e esquerda, mobilizando partidários fanáticos. Isso fez com que familiares se distanciassem, amigos quase chegassem às vias de fato, as diferentes redes sociais foram bombardeadas (e continuam sendo) com memes e declarações variadas, defendendo um ou outro lado e partido. Discussões sem final feliz.

Como diz o ditado: política não se discute. Mas isso não é bem verdade, ainda mais quando o assunto é saúde.

Políticas de saúde fazem parte da constituição de todos os sistemas mundiais. No pós guerra, o governo inglês implantou a seguridade social e teve esse modelo replicado mundo afora. Durante o governo Obama, a discussão foi entre Medicare e Medicaid.

Em nosso país o tema começou a ganhar ênfase após 1988, com a nova constituição e a criação do SUS. Nosso fabuloso sistema, que garante “saúde a todos, tendo como senhor, o estado”, carece ainda (e sempre careceu) de uma gestão adequada para sua dimensão. E sabemos, que sem gestão é impossível fazer com que os recursos certos cheguem aonde deveriam chegar. Ou seja, política e gestão são fundamentais em saúde.

Uma pandemia é regida pelo inesperado. E com a Covid-19 isso foi marcante. Os países que conseguiram entender isso prontamente, saíram na frente. Outros, que não acreditaram nas notícias mundiais, menosprezaram as evidências científicas e preferiram acreditar em xamãs e em tratamentos empíricos ou proféticos, acabaram se dando muito mal.

Coincidência ou não, o Brasil não se preparou para enfrentar o coronavírus. Preferiu esperar o carnaval passar para as medidas iniciais, mesmo com as notícias que chegavam do oriente. Trocamos de ministros da saúde como fazemos com as roupas. Deixamos descentralizadas, decisões importantes, ao bel prazer de quem é que fosse, promotores, juízes, prefeitos ou governadores.

O renomado periódico New England Journal of Medicine, publicou em abril de 2020, um editorial chamado “Ten Weeks to Crush the Curve”, onde aborda os seis pontos essenciais para um controle efetivo da luta contra a pandemia. Falava claramente em um comando governamental equilibrado e unificado; na realização de testes em massa, para que as medidas de isolamento e restrições, fechamentos de atividades essenciais e tudo mais relacionado, fosse feito dentro de parâmetros aceitáveis para a saúde e economia; na diferenciação entre diferentes grupos populacionais, promovendo o tratamento adequado de quem mais precisasse; na proteção dos profissionais de saúde com padronização e uso consciente dos EPI’s (Equipamentos de Proteção Individuais); na educação da população quanto aos cuidados básicos, sua promoção e importância de manutenção ao longo do tempo, até a chegada da vacina para todos cidadãos; e finalmente no incentivo às pesquisas que orientariam os tratamentos.

No “jeitinho brasileiro”, fizemos tudo bem diferente: não fizemos testes em massa, pelo contrário. Utilizamos mal os testes que compramos, sem critérios ao longo de meses. Propusemos tratamentos discutidos amplamente pela comunidade médica, valorizando os “tratamentos precoces”, drogas incertas, cloroquinas e ivermectinas, ozônios, vitaminas e afins. As restrições seguiram critérios políticos. Ou melhor, a briga política entre governos federal e estadual, entre estadual e municipal, foi mais discutida do que a conscientização da população. Isso certamente motivou o baixo engajamento dos mais desfavorecidos. E quando a sobrevivência se viu ameaçada pela economia em frangalhos, a saúde foi colocada em xeque mate.

A falta de oxigênio em Manaus foi um desses capítulos de falta de organização. A gestão dos recursos foi mal conduzida. Governantes preocupados com eleições municipais em detrimento de um combate eficiente ao inimigo mundial comum. A ignorância da população, que de toda forma precisa sobreviver com um pouco de comida no prato. Um sistema dependente de hospitais que há muito tempo não viam melhorias e incentivos.

Como bem citou a AMIB (Associação Brasileira de Medicina Intensiva), regional do Amazonas, em carta pública, datada de 14 de janeiro de 2021, a tragédia instalada teria sua origem em dois fatores: falta de gerenciamento dos recursos, leitos e insumos, por parte dos gestores; e o descumprimento da população quanto às medidas efetivas de controle (distanciamento, uso de máscaras, etc.)

Na última semana, o atual ministro da saúde estava em Manaus, tentando corrigir pontos importantes de última hora, como o suprimento de insumos, a abertura de novos leitos e a transferência de pacientes para outros lugares, em melhores condições. Novos médicos foram contratados às pressas. Talvez tudo isso tenha sido tarde para Manaus.

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