Como fica a saúde mental dos profissionais da saúde em meio à pandemia?

Quais são os principais desafios emocionais dos profissionais que estão na linha de frente do combate ao coronavírus e o que podem fazer para lidar com as pressões e o isolamento que este momento impõe sobre eles.

Desde que a pandemia do coronavírus e da Covid-19 se tornou uma realidade no Brasil, há cerca de um mês, temos nos deparado com uma série de conteúdos que visam colaborar para que as pessoas consigam encarar melhor a situação: há cursos online disponibilizados gratuitamente, lives de influenciadores digitais e artistas quase todos os dias, editoras oferecendo livros gratuitos, academias enviando séries de exercícios pelo celular e muito mais.

Para a maioria das pessoas, o grande desafio é ficar em casa. Logicamente, a quarentena não se resume a isso. Todos estamos lidando com diversas pressões. Além do medo, existe a preocupação com a economia, o distanciamento social e os efeitos colaterais do confinamento (como a falta de luz do sol e vitamina D, que prejudica a saúde em vários aspectos).

Mas, e os profissionais da saúde, como ficam? Com cargas horárias mais severas e extensamente expostos ao vírus, eles não podem ter contato direto com suas famílias e estão inseridos em um cenário de grande desvantagem, visto que a curva de crescimento da doença está em ascensão. O que médicos, enfermeiros e demais funcionários de hospitais, clínicas e postos de atendimento podem fazer para amenizar a pressão psicológica e se manterem mentalmente saudáveis neste momento?

Administrando os sentimentos de culpa e medo
No episódio Saúde mental dos profissionais em tempos de pandemia, do podcast da PEBMED, a editora de Clínica Médica, Dayanna Quintanilha, entrevistou a psicóloga hospitalar Mariana Leles, que deu uma visão de geral de como essa grande mobilização do sistema de saúde está afetando o psicológico das equipes.

“A realidade, em todos os hospitais daqui [de Goiás, onde ela vive], tem sido exatamente a mesma. Todos os profissionais estão altamente estressados, fragilizados emocionalmente ao extremo, manifestando uma sensação de insegurança. Primeiramente porque, creio que é a primeira vez na história [de pessoas] dessa nossa faixa etária viverem uma pandemia da maneira que está acontecendo. Em segundo lugar, por conta de todas as complicações que isso acaba acarretando: as repercussões emocionais que são mobilizadas nos profissionais, reflexões até mesmo de vida, de estabelecer novas prioridades, passar a refletir sobre coisas que antes talvez até o próprio trabalho encobrisse, como a questão da própria saúde, ‘o que é uma prioridade na nossa vida?’”, comentou.

Segundo a psicóloga, a maioria das queixas observadas nos plantões envolvem dois sentimentos: culpa, por estarem afastados de suas famílias, e medo. Este último não se refere tanto a si próprios, mas aos familiares. “[Trabalhar com saúde] não foi uma escolha que eles fizeram”, explicou. Por serem potenciais vetores de transmissão do vírus, os profissionais precisam se manter afastados das pessoas que amam e isso afeta bastante o emocional da classe. Além disso, problemas de cunho técnico e/ou burocrático, como a escassez dos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs).

“Muitas vezes, o fator emocional é fortemente influenciado por questões pessoais, mas também por questões que são técnicas. No nosso dia a dia, a gente já faz — quase que automaticamente — a nossa higiene pessoal, a higiene de mão, sempre que vai atender um paciente já bate o olho na placa de precaução e se paramenta… Só que, nesse momento, é uma novidade. Então, mesmo nos serviços em que têm tudo disponível, que não está faltando nada, o que eu percebo é que as pessoas estão numa fase de adaptação. E tudo aquilo que é novo, que nos leva a ter uma maior concentração [de pessoas], geralmente cria-se uma insegurança”, continuou a psicóloga.

Como o hospital, clínica ou posto de atendimento pode colaborar?

Um ponto importante é a sintonia da equipe. No momento, muitos profissionais de outras especialidades estão sendo redirecionados para o atendimento de emergência; e ter que assumir esse papel pode ser um desafio. Na emergência, as manobras precisam ser extremamente precisas — até mesmo na paramentação — para reduzir ao máximo as chances de contaminação.

Isso quer dizer que o serviço de orientação e treinamentos dos profissionais deve ser sistemático e o mais prático possível, de maneira que eles tenham toda a segurança e suporte para realizarem suas funções. Administrar os recursos para que haja equipamentos para todos também é um ponto essencial para evitar ansiedade e nervosismo. E, claro, o apoio psicológico, com equipes capacitadas para acolher esses profissionais. “Isso vai acontecer com todos, em algum momento, neste cenário”, sinalizou Mariana.

E o apoio familiar?

De acordo com a psicóloga, a família e os amigos são a principal rede de apoio de qualquer pessoa, mesmo para quem mora sozinho. “Pensando nesse viés da família, uma outra questão que vale a pena citar é que, às vezes, com esse nosso afastamento para poder trabalhar, com a família mais reclusa, existe um afastamento físico e uma sobrecarga para ambos. Para a família, de informações (de quem está com o tempo ocioso, acompanhando todo tipo de notícia, que nem sempre vai ser exatamente verídica) e, para nós profissionais, de estarmos totalmente envolvidos nesse cenário sem conseguir ter válvulas de escape. A aproximação familiar é uma das coisas mais importantes para o colaborador nesse momento”.

Nessa situação, a proximidade emocional e o fortalecimento desses laços afetivos podem ser feitos e mantidos com compartilhamento de experiências, chamadas de vídeo, ligações, mensagens etc. Além disso, é preciso informar os familiares com dados seguros e fidedignos sobre os reais perigos que os profissionais de saúde estão passando, a fim de evitar pânico e atitudes exageradas.

E, por fim, que exista uma relação de cumplicidade para que o profissional consiga se abrir: “Se permitir falar sobre os seus medos, as suas angústias e as suas necessidades. Porque o profissional da saúde naturalmente tem uma tendência de se colocar como forte, aquele que consegue e que é o cuidador. E, nos momentos em que ele sente medo, a tendência é se recolher”, arrematou Mariana.

Organização da rotina e momentos de repouso

Assim como investir nas relações pessoais, mesmo que sem contato físico, é importante cuidar do corpo e da mente para que eles sejam revigorados com eficiência para os horários de trabalho. Portanto, usar os momentos fora do plantão para cuidar da saúde física e mental é de grande ajuda. O repouso de qualidade, na quantidade necessária, é essencial para administrar a força do sistema imunológico e para que o profissional se mantenha atento quando estiver trabalhando.

Outra dica é que cada um defina as suas prioridades e saiba determinar quais atividades são indispensáveis para que os objetivos de descansar e recuperar a vitalidade do corpo sejam alcançados. Por fim, é importante saber “fugir do assunto”: ler um livro, ver um filme ou série, enfim, tentar tirar a mente do trabalho.

Para Mariana Leles, investir na solidariedade e na colaboração com o próximo também é uma boa maneira de gerar uma sensação de bem-estar em meio ao caos. Assim como desconectar da internet, das redes sociais e dos grupos de mensagem; além de pensar sempre no coletivo. “Individualismo não tira ninguém de pandemia. A sua urgência pode prejudicar o outro”, finalizou a psicóloga.