Coronavírus: devíamos estar mais preocupados? Ou não?

Com a categorização do COVID-19 como pandemia, muitas medidas de prevenção vêm sendo adotadas a fim de conter a disseminação do vírus no Brasil. Mas será que estamos exagerando? Ou algumas pessoas estão sendo excessivamente confiantes?

Desde o início do ano, estávamos acompanhando as notícias do surto do novo coronavírus (COVID-19) na China. Rapidamente, o surto se tornou uma epidemia e, no início deste mês, foi categorizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma pandemia, ou seja, a contaminação ultrapassou limites continentais.

Nas últimas três semanas, o vírus começou a se espalhar pelo Brasil e, até o momento, as secretarias estaduais de saúde contabilizam 654 infectados em 23 estados e no DF. As primeiras reportagens reiteraram que não havia — ainda — necessidade de alarde quanto à sua disseminação e já indicavam a higienização das mãos como principal forma de prevenção. Neste final semana, vários eventos culturais foram cancelados, governos estaduais e federal decretaram situação de Emergência e as instituições de ensino estão suspendendo as atividades pelos próximos dias, a fim de promover a contenção.

Há ainda as empresas que estão adotando o modelo de trabalho remoto (home office) para não exporem seus funcionários a situações nas quais o vírus possa se proliferar, como transportes públicos e escritórios fechados. Por outro lado, muitas pessoas ainda estão frequentando bares, shoppings e academias, alheias às diretrizes de prevenção.
Cabe, então, a pergunta: devíamos estar mais preocupados com o coronavírus? Ou há pessoas que estão entrando em pânico sem necessidade?

Se informar é prevenir
Como vocês já devem saber, os sintomas e as formas de transmissão do coronavírus são bem parecidos com os da gripe. O agravante é que ainda não existe vacina para o novo vírus e não há informações suficientes para determinar seu nível de periculosidade. A informações que temos é que a taxa de mortalidade na China foi baixa, porém, a velocidade da disseminação do COVID-19 pelo mundo é alarmante.

O Dr. Gustavo Deboni explica que o coronavírus “é um vírus de transmissão respiratória. Ela ocorre por meio do contato com as pessoas doentes; das gotículas de saliva, das secreções respiratórias e, também, da possibilidade de contato com as mãos. Então, nós devemos sempre nos proteger lavando bem as mãos e protegendo as vias respiratórias”.

Especialista em Medicina de Emergência, ele também atenta para o fato de que este é um momento no qual muitas fake news acabam aparecendo: “Há diferentes grupos e viagens. Hoje o mundo todo é globalizado, as pessoas viajam muito. A disseminação comunitária já começou. Por isso, a gente vai acabar tendo contato com o vírus, isso é inevitável, e a única forma efetiva de prevenção é realmente a nossa higiene e o isolamento social”, argumentou.

Segundo o médico e idealizador do centro de treinamento médico EME Doctors, a proliferação deve ser ainda maior nos próximos meses, tendo em vista a chegada do outono e, posteriormente, do inverno. A temperatura mais amena e o clima mais seco favorecem o alastramento.

Nesse cenário, é importante se submeter (se possível) à quarentena voluntária — evitando sair de casa a não ser em casos de necessidade — e praticando o distanciamento social, ou seja, reduzindo a quantidade de contato físico com outras pessoas (especialmente apertos de mão, beijos e abraços). Vale lembrar que estão nos grupos de risco para infecção pelo coronavírus crianças, idosos, pessoas com imunidade baixa devido a alguma enfermidade aguda e portadores de condições crônicas (como asma, rinite ou bronquite).

Surto, epidemia e pandemia: quais as diferenças?
Outro ponto importante é saber identificar todas as fases disseminação do vírus, a fim de entender as implicações de cada uma. A alteração de categoria de epidemia para pandemia determina que a doença se espalha por uma grande quantidade de regiões do planeta, ou seja, ela não está restrita a apenas uma localidade.

Como explicado pelo Dr. Deboni, com a facilidade de deslocamento das pessoas atualmente, as pandemias podem ocorrer com mais frequência nos dias de hoje. Além do coronavírus, outra situação de pandemia marcante foi a H1N1, ocorrida em 2009. De acordo com a OMS, a gripe atingiu cerca de 120 territórios em apenas oito semanas.

A epidemia, por sua vez, se refere ao aumento de casos de uma doença em uma região, que excede o número esperado para aquele período do ano. Ela pode acontecer quando diversos bairros apresentam uma doença, a epidemia em nível estadual acontece quando diversas cidades têm casos e a nacional acontece quando há casos em diversas regiões do país. Por exemplo, quando várias cidades decretam epidemia de dengue.

O surto precede a epidemia e a pandemia. A condição ocorre quando há aumento repentino do número de casos de uma doença em uma região específica. Para ser considerado surto, deve haver um registro maior do que o esperado pelas autoridades, como quando há aumento expressivo de dengue em um bairro.

Afinal, estamos exagerando?
Em entrevista ao jornal Linha Popular, Dr. Deboni afirmou que “a letalidade do vírus é calculada em torno de 3% de uma forma geral. Letalidade é o número de pessoas que faleceram dividido pelo número de pessoas infectadas; é a chance de uma pessoa vir a morrer daquela doença. É um número expressivo, muito mais acentuado nas pessoas com mais de 60 anos. Nas pessoas mais jovens, com imunidade competente, a letalidade é muito baixa, algo em torno de 0,3%. Mas nas pessoas de mais idade, a letalidade vai progressivamente aumentando e, nos maiores de 80 anos, por exemplo, ela chega a 15%, que é um número muito expressivo”.

Isso quer dizer que medidas preventivas devem, sim, ser adotadas. É importante proteger, principalmente, as pessoas dentro dos grupos de risco. Então, além do cuidado com a higiene, é importante evitar grandes aglomerações e o contato físico direto. Uma dica valiosa é ter um frasco de álcool em gel sempre com você para higienizar as mãos após tocar em maçanetas e corrimãos em locais públicos e até mesmo dinheiro. Mas o melhor agente contra o vírus ainda é o sabonete.

Vale lembrar que o Brasil enfrenta diversas epidemias ao longo do ano, inclusive não diretamente relacionadas à saúde, como as mortes violentas no trânsito. Mas nem por isso o cuidado com o coronavírus deve ser diminuído, tendo em vista que ainda se conhece muito pouco sobre a doença.