Dois terços dos contágios de coronavírus ocorrem por infectados assintomáticos

Os médicos Gustavo Deboni e Leonardo Aguiar ressaltaram a importância do isolamento social em meio à pandemia de COVID-19

Pessoas infectadas pelo novo coronavírus (COVID-19), mas que não manifestam sintomas da doença, são responsáveis por dois terços dos contágios. É o que afirma estudo da revista científica Science, publicado neste mês. Isto, somado ao longo período de incubação da doença (em média de 2 a 7 dias, mas podendo chegar a 14 dias), causa preocupação na classe médica. O Dr. Gustavo Deboni, diretor técnico da EME Doctors e idealizador da plataforma Primeiro Plantão, e o Dr. Leonardo Aguiar, médico cirurgião plástico, reforçam que o melhor caminho para impedir a propagação acelerada da pandemia é o isolamento social, fechando as cidades e permitindo somente serviços essenciais. O tópico foi um dos assuntos debatidos durante live entre os dois médicos, veiculada no Instagram no último sábado (21 de março).

As medidas de quarentena são recomendadas pelo Ministério da Saúde e Organização Mundial da Saúde (OMS) e vêm sendo postas em prática, efetivamente, por alguns governadores e prefeitos pelo país, incluindo Santa Catarina e cidades do estado. Na análise dos profissionais, o confinamento de agora é o que vai ajudar a achatar a curva de infectados e pode evitar que haja o colapso do sistema de saúde em meados do mês de abril, conforme previsão divulgada pelo ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.

Precisamos achatar a curva
Mas o que significa achatar a curva? Pessoas serão infectadas com o coronavírus, isto é fato, já que o vírus é altamente transmissível e ainda não existe vacina contra ele. E parte dos contagiados terá de usar os hospitais. O que acontece é que não existem leitos o suficiente, em especial de UTIs (Unidades de Terapia Intensiva), para atender tantas pessoas se ficarem doentes simultaneamente. O conceito de “achatar a curva de infectados” envolve tomar medidas rápidas para evitar a propagação acelerada do vírus e, consequentemente, não causar sobrecarga no sistema de Saúde.
Uma fatia da sociedade ainda ficará doente e precisará de hospitais, mas ao menos isso ocorrerá em um período mais longo de tempo. Isto, claro, sendo tomadas as medidas necessárias de mitigação em tempo hábil.

Colapso na saúde
Durante a conversa transmitida ao vivo no Instagram, os médicos Gustavo Deboni e Leonardo Aguiar também demonstram preocupação com o colapso do sistema de saúde, previsto pelo Ministério da Saúde. Antes da pandemia, 78% dos leitos de UTIs já estavam ocupados no Brasil. No último dia 20, já eram somadas 176 pessoas diagnosticadas com coronavírus internadas em UTIs no país.

“As pessoas não sabem. Se você precisa de uma vaga de UTI, hoje, é um inferno. Você tem que ir buscando leito, e já estão lotados. O sistema já está num colapso”, avalia Dr. Aguiar.
O Governo do Estado de Santa Catarina, no dia 18 de março, pedia para que os hospitais reservassem 10% de seus leitos de UTI — o que corresponde a cerca de 45 leitos dos 450 disponíveis nos 117 hospitais catarinenses, incluindo rede pública (SUS) e entidades filantrópicas. Mas, para quem vive a realidade do sistema de Saúde, a tarefa é quase impossível de ser efetuada na prática.

“Eu estou direto no hospital e continuamos tendo infartos, traumas, as pessoas continuam adoecendo. Continuamos tendo os outros problemas”, explica Deboni. “Há pessoas que estão em ventilação mecânica, por outras doenças, a coisa continua”, completa. Na opinião do diretor técnico da EME Doctors, também não adianta apenas criar os leitos: também é necessário fornecer equipamentos apropriados (respirador, bomba de infusão) e profissionais treinados para cumprir as tarefas que uma UTI exige. No entanto, o médico, que também é educador, reforça a dificuldade de qualificar o número necessário de profissionais para tarefas tão sensíveis em tão pouco tempo.

Saúde mental e financeira
Na live no Instagram, os médicos também demonstraram preocupação com a saúde mental das pessoas isoladas em casa. Em meio a incertezas sobre o futuro do trabalho no país durante e após a pandemia, além do medo da doença, um dos pedidos dos especialistas foi que as pessoas tentem se concentrar em tarefas cotidianas simples, como limpar a casa, assistir a um filme, ler um livro e tentar esquecer um pouco os jornais.

Inclusive, por conta da enxurrada de informações em vários meios de comunicação, os profissionais recomendam que as pessoas acompanhem os canais oficiais para evitar entrar em contato com fake news enquanto se mantém bem informadas. Dr. Deboni recomenda, como fontes de informação confiáveis para médicos, os sites do New England, da UpToDate e da OMS.

Outro alerta, que interfere na saúde mental, é o cuidado com a saúde financeira. Com o Governo Federal ainda decidindo quais medidas serão adotadas para reduzir o impacto na economia, algumas pessoas poderão ficar completamente sem renda. Autônomos, por exemplo, podem ser bastante prejudicados. Nessa hora, a recomendação do médico Leonardo Aguiar é fazer uma projeção dos gastos dos próximos três meses e verificar se há capacidade de pagar as contas nesse período. E, se não houver, avaliar quais as opções mais viáveis e que vão trazer menos prejuízo, como reduzir gastos e negociar com fornecedores para pagar depois. “Temos que pensar num plano de contingência”, finaliza.