MANIA ENTRE OS JOVENS, CIGARRO ELETRÔNICO CAUSA NOVA DOENÇA PULMONAR

Virou moda, principalmente entre os jovens, o uso de cigarro eletrônico, também denominado vaping ou e-cigarro. No entanto, o que a maioria dos usuários desconhece é que, assim como todo vício, este também pode fazer mal à saúde. E já é, inclusive, responsável pelo surgimento de uma nova doença, Injúria Pulmonar Relacionada ao Uso de Cigarro Eletrônico (E-cigarette Vaping Associated Lung Injury -EVALI).

Em 2019, a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), confirmou três casos de EVALI no Brasil. Todos os pacientes usaram cigarro eletrônico com tetrahidrocanabinol (THC). Nos Estados Unidos, a situação é ainda mais grave. Descrita inicialmente no ano passado, a patologia vem afetando, especialmente, adolescentes e adultos jovens saudáveis, principal público consumidor do dispositivo.

Segundo a pesquisa E-cigarette or vaping product use-associated lung injury (EVALI) features and recognition in the emergency department, realizada em junho deste ano, desde agosto de 2019, a doença pulmonar motivada pelo e-cigarro resultou em 2.758 hospitalizações e 64 mortes nos Estados Unidos.

De acordo com o estudo, “embora a fisiopatologia exata da lesão pulmonar induzida pelo acetato de vitamina E seja desconhecida, este produto pode levar ao acúmulo de lipídios pulmonares e/ou interferir no funcionamento do surfactante (substância que mantém o alvéolo pulmonar aberto). Os sintomas da EVALI são vagos, mas consistem em uma constelação de fatores gerais, muitos deles pulmonares, e ainda gastrointestinais”.

Entre os sintomas mais comuns estão tosse, dor torácica e dispneia (falta de ar). Podem ocorrer ainda dor abdominal, náuseas, vômitos e diarreia, além de sintomas inespecíficos como febre, calafrios e perda de peso.

Por ser uma nova condição clínica, o diagnóstico desta patologia pode ser complexo. A EVALI deve ser considerada em pacientes que utilizaram e-cigarro nos 90 dias após o início dos sintomas e que apresentam imagens pulmonares anormais na ausência de qualquer infecção pulmonar. 

De acordo com a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, as alterações nos exames de imagem são inespecíficas, com predomínio das consolidações e/ou vidro fosco em ambos os pulmões. O aumento dos leucócitos, do PCR e das enzimas hepáticas também é frequente.

O estudo E-cigarette, or vaping, product use associated lung injury (EVALI): case series and diagnostic approach realizado no University of Rochester Medical Center (Rochester, NY, EUA) alerta para a gravidade dos casos. Dos pacientes admitidos na unidade com a doença, a maioria necessitou de tratamento na UTI e terapia com corticóides.

O tratamento consiste na suspensão do uso do cigarro eletrônico, medidas de suporte clínico, incluindo oxigênio, uso de corticoesteróides, e quando necessário, ventilação não invasiva ou invasiva, ou seja, uso do ventilador mecânico.

“Os pacientes dispneicos ou com saturação de oxigênio inferior a 95%, com comorbidades ou outros fatores, a critério do médico assistente, devem ser internados. Os pacientes ambulatoriais devem ser reavaliados dentro de 24 a 48 horas. O corticoide sistêmico pode ser útil em pacientes hospitalizados. No entanto, seu papel ainda não foi avaliado nos pacientes ambulatoriais”, recomenda a SBPT.

Apesar de ser mania entre os jovens, uma resolução da ANVISA (RDC nº 46, de 28 de agosto de 2009) proíbe a comercialização, importação e propaganda de todos os dispositivos eletrônicos para fumar no Brasil. Uma tentativa tímida para banir este novo vício que vem comprometendo a saúde de pessoas em todo o mundo.

Para contribuir com a identificação da patologia e tratamento, a SBPT sugere aos pneumologistas e clínicos em geral que utilizem os critérios diagnósticos e classificatórios divulgados pelo Centers for Disease Control and Prevention (CDC) disponíveis em https://www.cdc.gov/tobacco/basic_information/e-cigarettes/assets/2019-Lung-Injury-Surveillance-Case-Definition-508.pdf.

REFERÊNCIAS

Aldy K, Cao DJ, Weaver MM, Rao D, Feng SY. E-cigarette or vaping product use-associated lung injury (EVALI) features and recognition in the emergency department. J Am Coll Emerg Physicians Open. 2020 Jun 8;1(5):1090-1096. doi: 10.1002/emp2.12112. PMID: 33145562; PMCID: PMC7593457.

Kalininskiy A, Bach CT, Nacca NE, Ginsberg G, Marraffa J, Navarette KA, McGraw MD, Croft DP. E-cigarette, or vaping, product use associated lung injury (EVALI): case series and diagnostic approach. Lancet Respir Med. 2019 Dec;7(12):1017-1026. doi: 10.1016/S2213-2600(19)30415-1. Epub 2019 Nov 8. PMID: 31711871.

Centers For Disease Control and Prevention. 2019 Lung Injury Surveillance Primary Case Definitions. September, 18. https://www.cdc.gov/tobacco/basic_information/e-cigarettes/assets/2019-Lung-Injury-Surveillance-Case-Definition-508.pdf