O protocolo da cloroquina segundo a infectologista Drª. Ho Li

Como a cloroquina se tornou uma opção viável para o tratamento da Covid-19, como deixou de ser e porque causou tanta polêmica? Infectologista no Hospital das Clínicas da USP, a Drª Ho Li explicou esses acontecimentos e falou sobre as várias funções dos médicos neste momento de pandemia e excesso de informação

Desde o início da pandemia do coronavírus na China, entre dezembro e janeiro, vários estudos começaram a ser realizados a fim de buscar maneiras de lidar com a Covid-19. Isso inclui tanto o desenvolvimento de uma vacina quanto a formulação de protocolos de tratamento com medicações já existentes, entre outras possibilidades.

Um dos protocolos que gerou bastante discussão e polêmica no ambiente científico (e, também, na mídia) foi o da cloroquina e da hidroxicloroquina. No 1º Congresso Online de Medicina de Emergência (Comesc), realizado no dia 23 de maio, a Drª. Ho Yeh Li, infectologista e coordenadora da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) de moléstias infecciosas do Hospital das Clínicas de São Paulo, deu um panorama de como essa droga passou a ser cogitada para o tratamento da doença.

O caminho da ciência

Após pesquisar em bancos de dados acadêmicos de todo o mundo, ela afirmou em sua palestra que poucos artigos apresentavam experimentos randomizados, ou seja, que poderiam dar informações embasadas sobre tratamentos.

Especificamente, sobre a cloroquina, “o primeiro estudo saiu no final de janeiro e mostrou que, na concentração in vitro de 10 micro- mols/L ela poderia produzir uma inibição de 90% do vírus e, ainda, com uma baixa toxicidade. Esse resultado fez com que muitas pessoas acreditassem que essa droga pudesse ser utilizada no tratamento de Covid-19”, explicou.

Segundo a médica, outros artigos mostraram resultados positivos, porém tinham apenas 100 pacientes participando dos testes. Logo depois, saíram revisões sistemáticas do uso de cloroquina nesse contexto. Além disso, vários estudos não especificavam a dosagem usada e outros tantos ainda estavam aguardando aprovação.

Quando a doença chegou ao Brasil, um estudo realizado em Manaus mostrou que altas dosagens da droga poderiam aumentar a mortalidade do paciente. O primeiro artigo científico com dosagem saiu somente no começo do mês de maio, mas não foi associado à eliminação mais precoce do vírus ou à redução dos sintomas. E as conclusões dos estudos que foram surgindo alertavam para o fato de que ela era potencialmente danosa e seria prematuro dizer que trazia benefícios no tratamento.

O paradoxo do desenvolvimento

Na ocasião do Comesc, a Drª Ho Li citou o artigo publicado na revista Lancet, que afirmava que o uso da cloroquina poderia trazer riscos para pacientes cardíacos. Tal estudo havia levado a Organização Mundial da Saúde (OMS) a suspender os testes com a droga.

Encerrando a palestra, a médica afirmou: “Eu, pessoalmente, considero que esse capítulo já deveria ter sido encerrado. Estamos gastando um tempo gigante numa droga que, cada vez mais, se mostra ineficaz. A gente deveria parar de discutir isso e partir para outra estratégia de trabalho”.

No dia 24 de maio, logo em seguida, foi revelado que o banco de dados utilizado para a realização daquela pesquisa não era confiável e o artigo foi retirado do ar. Os testes com a cloroquina – que é utilizada para o tratamento de doenças como o lúpus e a malária – foram, então, retomados. No entanto, não revelaram que ela seria eficaz no tratamento de Covid-19; apenas não traria os malefícios apontados na publicação. Recentemente, a OMS suspendeu novamente os estudos com o medicamento, reafirmando sua ineficácia no combate ao coronavírus.

Para a comunidade científica, trata-se de um momento, no mínimo, estranho: o mundo globalizado faz com que as informações “naveguem” com mais rapidez, mas, ao mesmo tempo, estudos e testes científicos precisam ser feitos com ética e cautela. Logo, a pressa em obter resultados pode acabar atrapalhando o trabalho do quem está em busca de soluções.

Em conversa com o Dr. Gustavo Deboni realizada no dia 05 de junho, a médica – que foi responsável pela missão de repatriação dos brasileiros que estavam em Wuhan, na China, em fevereiro – argumentou: “Até então, as grandes pandemias que existiram, na história da Medicina, ocorreram em momentos que não havia tantos recursos [como hoje]. Nessas épocas, não havia muito o que se fazer, então as medidas tomadas eram principalmente de contenção e de prevenção. Agora, não. A gente tem tecnologia e muitos recursos. Porém, é um vírus novo. E isso gera um pânico”.

Os desafios de hoje

Ela atentou para o fato de que o acesso aos recursos da atualidade não está nos permitindo reduzir a letalidade da doença. “As redes sociais, as fake news, informações não embasadas… Hoje é mais difícil filtrar informações, pois elas chegam muito rapidamente a quem não tem base teórica e prática para interpretá-las. Isso pressiona os médicos, que não têm muito tempo para analisar os dados e a situação”, constatou.

Sobre a questão da imunidade de rebanho, a Drª Ho explicou o que isso significa e porque é complicado apostar nesse método no Brasil, considerando a baixa capacidade do nosso sistema de saúde, que provavelmente não suportaria a quantidade de pessoas que viriam a precisar de atendimento médico:

“A ideia é que quando se tem muitas pessoas que estão imunizadas ou vacinadas, cria-se uma barreira de proteção para as que não estão. Em relação à Covid-19, há muitas dúvidas. A primeira é ‘quanto tempo depois de ter sido infectada aquela pessoa tem, realmente, um nível de anticorpos protetores?’ Não sabemos ainda. A segunda é ‘mesmo tendo um nível protetor de anticorpos, será que ele me protege contra um vírus mutante?’ Também não temos tanta certeza. Mas, independente disso, quando o vírus é de transmissão respiratória – em grande parte –, para você ter um efeito de rebanho, é preciso que pelo menos 90% da população já tenha algum grau de imunidade”.

Para além disso, há vários outros fatores que interferem em como o vírus se espalha e atinge as pessoas, como a região geográfica, a densidade populacional, a letalidade daquela mutação etc. Por isso, é muito difícil fazer qualquer julgamento rápido.

“A pandemia não pode matar a ética”

Em sua participação no Comesc, a infectologista afirmou que “a pandemia não pode matar ética”, atentando para os riscos em se mover muito rápido na ciência, mesmo que diante de um cenário desfavorável. “A gente precisa a acompanhar a evolução e o quadro clínico dessa doença. E tentar entender a melhor forma de manejo dela”, reforçou na conversa com o Dr. Deboni. Para ela, cabe à classe médica exercer esse papel de informar a sociedade sobre o que é seguro e confiável de fazer neste momento.