O que a pandemia ensina sobre gestão de crise para hospitais e médicos?

Medidas de contenção do vírus, adaptação de hospitais à realidade da Covid-19 e ao ‘novo normal’ na relação entre pacientes e médicos. Como os hospitais têm encarado a crise provocada pandemia? E o que podemos aprender com tudo isso para melhorar os nossos sistemas de gestão?

A questão da gestão de crise em relação à pandemia do coronavírus chegou ao Brasil antes mesmo da crise em si. Ainda em março, logo que os primeiros casos foram confirmados por aqui e a primeira morte ocorreu, já acompanhávamos toda a movimentação e o decorrente desespero dos nossos colegas nos hospitais italianos.

No dia 19 de março, o site da BBC no Brasil publicou a matéria ‘Em colapso’: a dramática situação dos hospitais na Itália na crise do coronavírus. O texto relata, em detalhes, os pontos de vista de diversos médicos e profissionais da saúde do país, atentando para o fato de que, por lá, a população idosa é muito grande (a segunda maior do mundo, atrás apenas do Japão).

A reportagem fala em crescimento rápido e exponencial de infecções, da falta de leitos de terapia intensiva, do fato de a saúde dos italianos já estar mais fragilizada naquele momento (devido às baixas temperaturas do inverno europeu), da pouca quantidade de equipamentos de proteção individual (EPIs) e da pressão à qual os médicos eram submetidos a todo momento.

Tudo indicava que no Brasil não seria diferente. Mas, como tínhamos cerca de duas semanas de vantagem em relação à Europa, havia uma chance de obtermos algum sucesso na contenção do vírus. Infelizmente, como sabemos, isso não aconteceu. E vale destacar que não existem soluções simples para problemas tão complexos.

A pandemia não ataca somente o nosso sistema de saúde. Ela prejudica a economia, a empregabilidade, as possibilidades de entretenimento, gera custos exorbitantes e inesperados e, ainda, cobra de todos os cidadãos que tenham responsabilidade com as vidas dos outros. Mas, como a gestão de crise se encaixa nesse cenário? Especialmente no que diz respeito ao funcionamento dos hospitais e ao trabalho de médicos?

O isolamento como estratégia

A primeira estratégia adotada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e seguida pela maioria dos países foi o isolamento social, a fim de tentar conter a propagação do vírus e garantir que os sistemas de saúde tivessem recursos suficientes para atender os infectados. No entanto, como comprova o artigo Bloqueio social como estratégia de gestão e controle da pandemia de Covid-19: uma análise através de modelos Arima, publicado em junho por pesquisadores do Pará, o método não foi eficaz aqui no Brasil.

Segundo o estudo, o isolamento estabilizou a tendência de novos casos e mortes por Covid-19, mas não promoveu a redução de casos:

“A não redução do número de casos estaria associada a outros fatores considerados mais estratégicos na condução do lockdown, entre eles podemos destacar: ausência de uma ação integrada no controle de pontos de aglomeração como as feiras-livres nos municípios; fechamento de vias de maior movimentação e redirecionamento de trânsito e fluxo de pessoas; estabelecimento de horários diferenciados para compras de alimentos por faixa etária; maior fiscalização nos supermercados que não atenderam limites de pessoas dentro dos espaços de compras”.

O artigo também cita o elevado índice de informalidade da região (que também é percebido em várias outras partes do país) e os problemas burocráticos que envolveram a transferência do Auxílio Emergencial a esses profissionais. Nessa perspectiva, os hospitais e médicos ficaram com o ônus da situação e precisaram se adaptar à realidade de remanejar os recursos para atender o máximo de pacientes possível, de maneira segura.

  • Assim, a primeira lição que podemos tirar da pandemia do coronavírus é de que é muito mais difícil controlar uma crise sanitária dessa magnitude quando não há a cooperação em massa de todas as forças envolvidas no processo de tomadas de decisão e na administração dos esforços.

Planos de contingência

Saindo da condição macro (o país) para a micro (o hospital), fez-se necessário colocar em prática planos de contingência, com o objetivo de redirecionar todos os recursos possíveis (equipamentos e profissionais) para o atendimento emergencial e tratamento de pacientes com Covid-19.

No mês de maio, o médico português Jorge Almeida publicou, na revista da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, um artigo que descreve o plano que foi adotado no Centro Hospitalar Universitário S. João, localizado em Porto. O escritor detalha medidas tomadas na enfermaria (como a separação dos enfermos com e sem Covid-19 em alas separadas), a adaptação das unidades de terapia intensiva para atender aos cuidados específicos exigidos pela doença e a reestruturação das funções de membros da equipe.

Segundo ele, a capacidade técnica e adaptativa dos profissionais foi essencial para que o plano desse certo: “Em qualquer plano de reestruturação é fundamental a capacidade de adaptação dos profissionais às funções que vão sendo criadas e alteradas, de acordo com as necessidades em cada momento. A capacidade técnica, aliada ao profissionalismo, espírito de missão, resiliência e determinação, têm constituído, como era esperado, a chave do sucesso deste plano”.

  • Dessa maneira, podemos inferir que, para que haja sucesso numa gestão de crise como esta, é preciso que muitos profissionais tenham a capacidade de se adaptar ao que a situação emergencial exige. E isso não fica restrito à atuação de médicos e enfermeiros: elementos como a gestão das finanças, logística e organização também devem funcionar em consonância para que o objetivo seja alcançado.

A relação com o paciente

Outro departamento diretamente afetado pela pandemia é, sem dúvida, a relação médico-paciente. Se comunicar e tratar pacientes de maneira humanizada já era um fator determinante no trabalho de profissionais da saúde antes do coronavírus. No entanto, agora, essa questão se intensificou bastante.

Alguns dos motivos para isso são a grande quantidade de incertezas em relação à doença e a necessidade de afastamento do paciente de seus familiares – sem contar a comoção coletiva ao redor do assunto. Tudo isso coloca novas camadas de responsabilidade e envolvimento na rotina dos médicos, que mais do que nunca precisam e precisarão recorrer às suas habilidades sociais.

  • Então, neste momento, é essencial que hospitais e profissionais da saúde (principalmente os não estão trabalhando diretamente no combate ao coronavírus) invistam em maneiras mais eficientes de comunicação com seus pacientes, tais como: oferecer informações relevantes e confiáveis em suas plataformas digitais e redes sociais, manter uma comunicação ativa com os pacientes (explicando detalhadamente as alterações em protocolos e medidas de segurança que estão sendo colocadas em prática) e aproveitar todo o potencial da tecnologia, por exemplo, oferecendo consultas online.

O fato é que crises sempre exigem novas maneiras de pensar e fazer. Incorrer nos mesmos erros não resolve nada. Foi Einstein quem disse: “É urgente eliminarmos da mente humana a ingênua suposição de que seja possível sairmos da grave crise em que estamos mergulhados, usando o mesmo pensamento que a produziu”.

Você que é médico, enfermeiro ou gestor hospitalar: que novas perspectivas vai levar desta crise?